sábado, 25 de abril de 2009

ARTIGO
Um Olhar sobre a Exclusão
por Rafael Wilhelm
Estudante de História UFSM


Durante a semana do último dia 20 de novembro assisti a alguns programas na TV sobre a comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra, e o que me chamou a atenção nesses programas foi o modo como as diferentes emissoras simbolizaram aquela data. Houve uma diferença muito pequena entre as abordagens feitas por cada um dos programas.

Até aí tudo bem, não é mesmo? Todos têm o direito de pensar semelhante e dessa forma expressar coisas quase idênticas. O que me chamou a atenção, contudo, não foi o fato dessas emissoras abordarem o assunto sob perspectivas semelhantes, mas o conteúdo dessa semelhança.

Dias antes, motivado pelas discussões que tivemos em aula, perguntei a um dos meus colegas de apartamento se ele achava que os negros estariam reconquistando seu espaço na sociedade brasileira, o mesmo espaço que teria sido roubado de seus antepassados no momento em que foram introduzidos no Brasil sob condições desiguais. Ele me respondeu que sim, “os negros estão retomando seu espaço na sociedade brasileira”. Afirmou isso utilizando o argumento de que cada vez mais negros desempenham papéis importantes na tv, mais cantores negros estariam fazendo sucesso, vários dançarinos negros estariam se destacando, e tantos outros negros, adquirindo fama através do esporte. Ainda de acordo com esse meu amigo, a “mídia”, por mostrar freqüentemente essas “conquistas”, estaria fortalecendo ainda mais tal inclusão.

Vocês querem saber o que eu vi naqueles programas da semana do dia 20 de novembro? Basicamente aquilo que meu colega relatou: artistas, cantores, esportistas e dançarinos negros sendo destacados, por meio de eventos oficiais ou não, como símbolos da importância e da inserção do negro na sociedade brasileira.

Depois de assistir àquelas reportagens, me fiz a seguinte pergunta: A partir do quê tenho eu considerado ou afirmado a inserção da raça negra na sociedade brasileira? Pasmem: semelhante a do meu colega, também a minha resposta ficou pairando sobre o quê a tevê principalmente havia me apresenteado como símbolo dessa suposta reintegração negra, não apenas através daquelas reportagens sobre o Dia Nacional da Consciência Negra, mas por tantas outras, anteriores aquelas, que foram absorvidas por mim também sem a devida análise crítica.

É inevitável não atribuirmos à raça negra em geral, potencialidades inatas. Temos realmente uma infinidade de ótimos artistas negros, vários atletas negros com desempenho maravilhoso, cantores, dançarinos... mas até que ponto essas capacidades, e apenas elas, precisam ser reproduzidas como elementos principais de valorização e reintegração dos negros à sociedade brasileira?

A cultura, o esporte, a arte sem dúvida alguma são caminhos legítimos de integração, mas e quanto aos cidadãos negros desamparados ou despossuídos dessas atividades e/ou qualidades? O que será que o seu José, operário negro que não sabe cantar acha disso? Ou a dona Maria, doméstica negra que não sabe dançar pensa sobre isso? E o Joãozinho, menino negro que não tem habilidade com a bola de futebol?

Eu adoro fotografia, e é costume meu sempre analisar uma foto a partir daquilo que foi deixado de fora dela. E creio que, nestes casos, o que tem sido deixado de lado tem um peso muito grande, pois se refere ao cotidiano da maior parte dos cidadãos negros, daqueles que por vários motivos não aparecem nos noticiários semanais nem em matérias especiais, mas que sofrem dia-a-dia com os mais diversos e pesados tipos de discriminação.

Nesse processo de inclusão social dos grupos historicamente marginalizados praticado por uma parcela da mídia e reproduzido por nós, ainda persiste o medo de reconhecer e lidar com os silêncios que sustentam verdadeiramente essa condição: a discriminação racial pura, do olhar dissimulado, do não olhar, do riso, do escárnio, do deboche, do nojo... e suas variáveis: o desemprego, os baixos salários, o subemprego, a exclusão. Um medo que talvez reflita a nossa própria culpa, e a nossa omissão diante da possibilidade de punir aqueles que desrespeitam e maltratam o próximo marginalizando-o sob o olhar conivente de outros tantos, não menos culpados que aqueles.

Na tv, no rádio, no jornal e no dia-a-dia, somos ainda obrigados a conviver com o propagandeamento de uma inclusão racial negra travestida de promoção apenas cultural, e muitas vezes restrita ao exótico. Talvez um sinal de que ainda não nos acostumamos a perceber os negros como iguais, em todos os campos e profissões, apenas por sua condição de seres humanos.

Nos falta garantir efetivamente o que continua sendo direito básico e universal de todo indivíduo, seja ele branco, pardo, negro, pobre: a dignidade e a cidadania.

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